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26.12.20

Retomando as crônicas de fim de ano

Entre 1995 e 2002 eu escrevia praticamente todos os anos uma crônica de Natal ou último dia do ano. Era como se fosse um registro das vivências, hábitos e preferências de cada momento, para guardá-los na eternidade e na memória com carinho.

Depois entrou a vida adulta de vez e parece que faltaram tempo, vontade, gosto de continuar a tradição. Mas quando a gente volta aos textos, anos depois, é muito gostoso. Cada época tem seu traço específico, algumas novidades, algumas repetições, porém todas fizeram parte de um pedaço de vida que, se a passagem do tempo leva embora, o registro em narrativa textual traz de volta. 

É um pouco de vida voltando a cada crônica, na contramão da inexorabilidade da existência caminhando para o fim. Como se ganhássemos um bônus pra rebobinar a fita (como dizíamos nos anos 90) e viver aquilo de novo. Não parece mágico?

Quando se tem uma nova motivação para viver, como uma filha como a Nina, a magia nos reaviva. Então vamos retomar a saborosa tradição! 2020 tem crônica de Natal. E publicada, uma novidade em relação às anteriores, de quando eu não tinha blog, pra você ver como são antigas. Está lá na minha página do Medium! 

3.5.15

AH, ABU, PRO-VO-CA-ÇÃO, HEIN !?

Perdemos do nosso convívio, dias atrás, o mestre Antonio Abujamra, dramaturgo, diretor de teatro, ator e apresentador de TV.

Desconhecia os demais trabalhos de talento de Abu, mas o papel de apresentador e mediador na TV Cultura, à frente do programa Provocações, acompanhava de perto, há mais de 10 anos.

Ainda na graduação em Jornalismo, nos bons tempos de vida universitária em Bauru, me reunia com os amigos de república para assistirmos e discutirmos as incisivas provocações abujamrianas. Sua ironia e sarcasmo ímpares, com diversas vítimas, desde a pífia audiência do próprio programa de entrevistas até a tragédia da impotência humana diante da constatação de suas limitações, dilemas e ignorâncias, faziam dele um personagem único.

Entremeava citações de enormes pensadores das ciências sociais, humanas e literatura com entrevistas captadas com transeuntes e maltrapilhos do centro de SP, no entorno da Praça da Sé, aquela gente que parecemos ignorar, perambulando e pregando ao léu, para quase ninguém ouvir e considerar. Mas Provocações ouvia.

Caricaturas e exageros à parte, ele nos fazia pensar e questionar sobre situações e fatos numa perspectiva que nem grandes professores de filosofia fariam. Vai lá, Abu, provoca os caras do outro plano pra onde te mandaram!

Na abertura da edição abaixo, uma das últimas do provocador, ele verbaliza o tradicional prólogo do programa que "idolatrava a dúvida" (sensacional isso!):




10.11.14

Olhar crônico: Impotência

Você já entrou num coletivo e viu uma pessoa chorando timidamente, procurando não fazer barulho, por uma dor que tá na cara que vem de dentro, a ponto de superar a vergonha de chorar em público, diante de um monte de gente estranha?

Pode acontecer qualquer dia. Acontece mesmo.

Noutro dia vi uma moça em pranto incontido assim, celular na mão, digitando sabe-se lá o quê, para quem, para quê... Jeitão de amor partido.

Me deu vontade de poder consolar, tentar uma palavra que reconfortasse, ao menos distraísse. Não porque era mulher, podia ser homem que a reação seria parecida. Basta ser um pouco humano pra entender.

Mas é claro que fiquei quieto. E virei o rosto, respeitando a "privacidade" dela. Nunca falei com a pessoa, vou chegar dando conselho? Ela querendo esconder o pranto, eu vou desvelá-lo?

Fiquei nessa, impotente. Como vou me sentir da próxima vez. Ou próximas.

É uma situação que me traz à mente essa música a seguir da Carly Simon, It happens everyday. É triste mas verdadeira e de uma melodia que gosto de entoar. Não porque sou triste. É que gosto de realidade. E também das velhas. Das velhas canções.



It Happens Everyday (Carly Simon, 1983)

It happens everyday
 Two lovers with the best intentions to stay
 Together they the decide to separate
 Just how it happens
 Neither is certain
 But it happens everyday


It happens everyday
 After you break up
 You say these words to your friends:
 "How could I have loved that boy?
 He was so bad to me in the end"


Well, you make him a liar
 Turn him into a robber
 Well, it happens everyday


But I don't regret that I loved you
 How I loved you I will never forget
 And in time I'll look back and remember
 The boy that I knew when we first met


Still it happens everyday
 Two lovers turn and twist their love into hate
 But am I so different
 From those young girls you used to date?
 You used to adore me
 You used to adore me
 Still it happens everyday