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16.4.16

Atacando de professor

Quando procurei um cursinho pré-universitário pra obter alguma experiência docente, em 2014, a ideia era ficar um tempo como professor de Língua Portuguesa,  especialmente Redação, como jornalista que sou e pelo que melhor sei transmitir, em termos de Ensino Médio.

Porém, entrou 2015 e as necessidades do cursinho Laudelina, da Rede Emancipa, me deslocaram para a equipe de coordenação, onde permaneço em 2016. Entretanto, como cursinho popular inevitavelmente abre lacunas pra cobrirmos de última hora, semanas atrás voltei para as salas de aula, aplicando dissertações.

A correção dos mais de 80 textos me motivou a elencar os erros mais comuns dos alunos e orientá-los nesse sentido, para que se atentem e evoluam. O resultado, em forma de tópicos, postei na página de Português do blog do cursinho, como é possível ler clicando aqui.


27.11.13

Perdi meu sogrão

A violência gratuita entre seres humanos faz vítimas a cada segundo nesse país (de merda), mas quando acontece na sua família o eco é outro. Aconteceu na minha dias atrás, culminando com a partida do meu sogro para outro plano no dia 16.
 
Compartilho da reflexão da amada esposa, publicada no Facebook e que reproduzo abaixo, porque vale ler, pensar, questionar, e aí guardar, para poder reler, repensar, rediscutir.
 
"O pai levou um tiro..." Eu costumo sempre me referir aos momentos felizes como "um dos dias mais felizes", graças a Deus já vivi muitos momentos felizes que não consigo elencar o mais feliz da minha vida. Mas infelizmente a partir do dia 05/11/13, consigo elegê-lo como o dia em que eu perdi completamente o chão, nunca o meu coração havia disparado tão rápido, nunca mudei de humor e chorei tão ráp...ido, nunca fiquei tão muda.. Amparada pelas colegas na faculdade, tudo o que vinha na minha cabeça era um misto de preocupação com a vida do homem que mais admiro no mundo e revolta com o pensamento:

"Quem foi o indivíduo que se sentiu no direito de atirar em meu pai?"

É incrível como tudo tem o seu sentido de acontecer no mundo espiritual. Meses atrás daquele dia, um amigo muito querido quase guru com quem gosto de discorrer sobre o mundo me disse: "Ari, está virando um caos, precisamos nos preparar para ver muitas pessoas que amamos sofrendo..".. Semanas atrás daquele dia, eu mesma havia sido vítima de um assalto e presenciado o ladrão com uma arma na cabeça de uma mulher apenas porque ela se recusou a dar-lhe a bolsa... Sim, o nosso mundo está violento, com ou sem razão..

A razão começa na origem de toda a organização dessa cidade, desse país.. No caráter das pessoas que os conduzem, na impunidade das pessoas que agem errado, na desigualdade social e financeira tão presente no nosso dia-a-dia.. Hoje eu sei quem é esse indivíduo que atirou no meu pai, ele pode ter muitos rostos cujos olhares cruzam os nossos todos os dias vítimas do mundo injusto em que vivemos.. Longe de defendê-lo, apenas entendo que ele tomou o partido do ódio, rancor e violência, foi isso que vi nos olhos do ladrão que me atacou, não, ele não estava drogado, apenas revoltado assim como aquele que atirou no meu pai, assim como vários que agem por aí atacando a vida de diversas famílias. Revolta essa que faz com que ele se renda ao ódio e esqueça de valores como amor, família, valor à vida, direito de ir e vir. É esse o nosso mundo, ainda que a polícia esteja de conluio com eles, não faça nada para prendê-los ou quando os prenda não leve a pena até o final, não é aqui que eles irão pagar pelo que fizeram e fazem.. Porque as leis divinas são as mais poderosas e certeiras que existem. Não desejo nada de mal, consigo perdoá-lo, apenas rezo para que eles consigam enxergar que não estão fazendo o bem e não conseguirão nada em troca desta forma, e tenho um fiozinho de esperança de que esse país seja algum dia melhor para que consiga minimizar e resolver todos os problemas existentes que geram atitudes impensadas como esta que tirou a vida do meu herói.
 
Nenhum desalmado vai nos tirar da memória imagens como essa (pelo menos dessa violência ainda escapamos)
 

12.3.09

RESPEITANDO A DIVERSIDADE BRASILEIRA (riquíssima!), passo de um post sobre música instrumental para outro de música brega (sem conotação pejorativa, isso é um estilo como outro qualquer para muita gente no país). Porque não se trata simplesmente de um Calypso da vida; ela é Sthefhany, fenômeno que em breve deve romper as fronteiras do Nordeste e ganhar o povão do resto da nação!

Quem traz a história dela é minha colega de iG, Carolina Garcia. O texto bombou em cliques e comentários no portal, mas como o que foi ao ar não era a versão completa, brindo-vos (adoro a 2ª pessoa do plural, oprimida dos meios de divulgação!) com a matéria na íntegra, com EXCLUSIVIDADE! Além de fotos e o vídeo do maior sucesso de Sthephany, que com certeza merece um comentário abaixo (mas se xingar a menina, vai vazar dessa birosca!).



Com mais de 400 mil acessos no YouTube, Stefhany é o novo sucesso da internet

Com dois CDs e dois DVDs lançados, a cantora Stefhany, de 17 anos, é considerada uma celebridade no nordeste do País. Com mais de dez vídeos caseiros postados no YouTube, Stefhany vem alcançando sucesso nas regiões sul e sudeste. O seu vídeo mais recente é "Eu sou Stefhany", versão de "A thousand miles", da cantora Vanessa Carlton, que já conta com mais de 400 mil acessos. No clipe, além de esnobar o namorado, a garota toma banho de espuma e dirige seu “Crossfox” cantando - "Eu sou linda. Absoluta. Eu sou Stefhany".

Os passos influenciados por Beyoncé e Shakira garantem o toque a mais. Porém, Stefhany deixa bem claro que sua principal fonte inspiradora é sua mãe-empresária-backvocal, Nety França. “Minha mãe é minha estrela. Sem ela, eu não sairia de casa”, afirma a cantora.

Sobre o sucesso que tem feito na internet, Stefhany diz que não pensava que tudo fosse acontecer tão rápido. “É incrível, só tenho a agradecer quem postou os vídeos lá. Nem sei como fazer isso”, garante. Porém, até hoje a cantora é proibida por sua mãe de acessar o YouTube, devido aos comentários maldosos deixados por internautas que tratam as suas músicas como bregas e de mau gosto. Para eles, Stefhany já tem uma reposta pronta: “Eu gosto do meu estilo que é calipso e forró. Ao contrário de São Paulo, o ‘brega’ aqui não é feio. Então se alguém me chamar de brega, digo muito obrigada!”

Dizendo que “nem Deus agrada todo mundo”, a compositora Stefhany explica que escreve suas músicas a partir de histórias que ouve de amigas, de sua mãe e de sua irmã. “Todas são histórias reais, canto o que vivo ou o que já vivi”. Sobre “Eu sou Stefhany”, autoria de sua mãe, a cantora conta que chegou a achar a música brega e “cafona”. “Falei para minha mãe que era feio eu sair por aí cantando que sou linda e absoluta, mas pegou, não foi?”. Durante um show, Stefhany revelou que chega a cantar a música mais de cinco vezes. “E eles ainda pedem mais. Ficam gritando: Canta aquela do Crossfox!”, brinca.

O símbolo do sucesso de Stefhany foi emprestado, o que pode chocar muitos. O automóvel Crossfox utilizado em seu novo vídeo não é da cantora nem de sua família. Stefhany explica que o carro foi emprestado por um amigo e diz que foi difícil convencê-lo. “Afinal, se batesse, quem iria pagar?”. Sem carta de motorista, a garota aprendeu a dirigir com a mãe, mas deixa bem claro que assim que puder, ao completar 18 anos, vai comprar um “Crossfox”. “Eu estou louca por um e tem que ser amarelo, bem brega!”

Bastidores do clipe

Seguranças e viaturas
Ao contrário do que muitos possam imaginar, Stefhany nunca desejou ser cantora. “Meu sonho era ser modelo. Aos cinco anos, ganhei o meu primeiro book”. Porém, segundo a garota, em Araripina, Pernambuco, ela não teria futuro como modelo.

Quando tinha oito anos, Stefhany cantava como vocalista de apoio na banda “Forró de Vênus”, na época liderada por sua mãe. Quando Nety teve que deixar a banda para trabalhar, viu que sua filha poderia ter uma própria carreira.

Assim, no ano passado, a menina começou a carreira solo com 24 músicos e dançarinos da banda de forró “Leva Eu”. Em um ano, gravou dois CDs e dois DVDs com uma coletânea de videoclipes filmados por um câmera contratado e editado por ela e sua irmã. O primeiro CD e DVD “Madrugada” vendeu 13 mil cópias após o terceiro dia de lançamento. Já o segundo, também disponível em DVD, “Vem me Amar”, vendeu mais de 5 mil cópias até agora – isso sem contar com a pirataria.

Em turnê em alguns dos principais Estados do nordeste (Bahia, Piauí, Ceará, Maranhão, Pernambuco), Stefhany conta que chega a fazer até cinco apresentações por dia, durante todo o mês. “Como venho de uma família muito humilde, não posso nem pensar em recusar um show. Quanto mais eu trabalhar, melhor”. Para Stefhany, o momento que marcou sua vida foi se apresentar na cidade de Petrolina, em Pernambuco, para um público estimado em 20 mil pessoas. “Dividia o show com três bandas, mas quando falavam o meu nome, o povo ia à loucura. Fiquei arrepiada, foi a primeira vez que percebi que eles estavam lá por minha causa”.

No Piauí, durante um show, Stefhany chegou a precisar de dois seguranças e oito policiais militares e “mesmo assim, eles não deram conta”, brinca. “Tiveram que me colocar dentro de uma viatura. Foi inacreditável ver como as pessoas choravam e se jogavam na frente do carro”.


19.11.08

CRESCER É MESMO NECESSÁRIO?

Decrescimento sustentável é a ousada tese do francês Serge Latouche para diminuirmos a devastação dos recursos naturais do planeta

(texto: Igor Olszowski)

As idéias do economista e filósofo francês Serge Latouche se chocam com o estilo de vida dos habitantes das grandes cidades do mundo. Professor emérito da Faculdade de Economia da Universidade Paris XI e do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (Iedes), Latouche, 68 anos, critica vorazmente o crescimento econômico promovido pelos estados. Defende com ardor uma suposta “descolonização” do nosso imaginário e uma mudança de comportamento mais ativa para salvar o planeta do esgotamento de recursos naturais.

O ritmo anda acelerado e estamos consumindo demais, acredita o pensador, que construiu nas últimas décadas toda uma crítica contra a ocidentalização do mundo. Latouche é um dos principais porta-vozes do movimento pelo decrescimento. Tem vários livros e artigos publicados sobre o tema, inclusive no Brasil. Mas, apesar da visão aparentemente trágica, assume-se como um otimista e acredita na vontade da juventude de viver num mundo melhor.

Como o senhor define o decrescimento sustentável?
Criamos esse slogan em 2002 para ir de encontro ao que todos falavam na época sobre o crescimento sustentável. Era preciso marcar uma ruptura radical, porque o crescimento não é durável. Por isso, nós buscamos esta palavra provocadora: decrescimento. O crescimento pelo crescimento ninguém acha absurdo. Então o decrescimento força as pessoas a pensar: “O que isso quer dizer?” Quando falamos em decrescimento, falamos em sair de uma religião do crescimento ligada à economia e ao progresso.

É possível alterar essa lógica?

O relatório do Clube de Roma de 1972 já dizia que uma sociedade de crescimento não era sustentável. Muitos sociólogos e filósofos mostraram que ela não era nem mesmo desejada. Como as ameaças se aproximam, torna-se mais visível. O projeto de uma sociedade de decrescimento não é uma alternativa, e sim a libertação de uma ditadura econômica para reinventar um futuro sustentável. Uma sociedade não pode sobreviver se não respeitar os limites dos recursos naturais. Eu proponho um ciclo virtuoso do decrescimento: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar. Os dois primeiros termos são importantes para colocar em questão os valores comuns em nosso imaginário. Reconceitualizar é mudar nossa maneira de pensar. É uma verdadeira revolução cultural.

Mas como iniciar a mudança?
Precisamos renunciar a essa atitude predadora, ter uma mudança de atitude mental. Não somente um comportamento individual e sim o produto de um sistema. Muita gente já está convencida de que não é preciso destruir todas as espécies para ganhar mais. Entretanto, são forçados pela lógica do mercado, pela concorrência e pelo marketing. Vamos então mudar de programa para depois trocar de computador. Alterar a base de produção e torná-la mais adequada às necessidades do meio ambiente. Buscar a reutilização, a reciclagem.

Nosso ritmo está muito acelerado?
Com certeza. É necessário dar um basta ao consumo excessivo. Não é somente uma ação individual – porque, se apenas reduzo meu consumo, isso não mudará muito. Temos que mudar o modo de produzir as coisas. Você pode comer um bife em que o gado é criado em pastos naturais ou um bife de uma fazenda que obedece à lógica de mercado. No último caso, você come petróleo. Ele incorpora 6 litros de petróleo. Como isso é possível? O gado é alimentado com a soja que é plantada na Amazônia. Os tratores destroem as florestas, fazem a plantação e despejam os pesticidas. Tudo isso é petróleo. Devemos colocar esse sistema em causa, e não o fato de comermos um bife.

Seremos realmente mais felizes se consumirmos menos?
O consumo traz cada vez menos a felicidade. Vários indícios provam isso. Muitos estudos apontam para o aumento de suicídios e a utilização de antidepressivos. O estresse tornou-se um problema grave em nossa sociedade. Mas ao mesmo tempo somos viciados nesse estilo de vida. Necessitamos de uma terapia.

O mercado de produtos orgânicos indica uma mudança de comportamento?
Aqui na França, as grandes cadeias de supermercados já têm uma linha própria de produtos orgânicos e provenientes do comércio responsável. Essa tomada de consciência é importante porque um dos aspectos destrutivos do meio ambiente é a agricultura produtivista. Tudo o que seja uma alternativa a isso é benéfico. A produção familiar e sem pesticidas é uma das condições para um futuro sustentável.

Mudar a matriz energética pode ser uma das vias de solução?
Como dizia a ministra do Meio Ambiente da República Checa: “Quando há uma inundação no banheiro, você pode secar com um pano de chão. O que eu faço de imediato é fechar a torneira.” Enquanto não decidirmos limitar o consumo de energia, todas as soluções de energia renovável não servirão para muita coisa. A primeira coisa a fazer é fechar a torneira.

A geração de agora é capaz de fazer essa transformação?
Em teoria, ela deveria ser menos capaz. Ela já está mais pervertida. O grande problema está na educação. Quais crianças deixaremos no mundo? Como nós deixamos às nossas crianças um mundo estragado, nós deixamos também para o mundo uma geração pervertida. Apesar de tudo, ainda há uma luz de esperança. Vejo uma participação crescente de jovens no movimento pelo decrescimento sustentável em vários países da Europa. Eles se organizam, tomam iniciativas. Eles querem viver num mundo melhor, salvar a humanidade e o planeta.

E qual seria então a mensagem do decrescimento?
A mensagem não é somente reduzir o excesso de consumo e os danos ecológicos, mas também reduzir a quantidade de trabalho. Não é trabalhar menos para ganhar mais. É trabalhar menos para que todos possam trabalhar e viver melhor. Assim, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que realmente valem a pena. Escutar música, dançar, jogar, pensar ou mesmo não fazer nada. Mas, ao contrário, nós nos tornamos viciados no trabalho. Os americanos inventaram a palavra workaholic. Nós quase precisamos de um curso de desintoxicação para reaprender a viver. E, nesse ponto de vista, o decrescimento é uma arte de viver.

Bruno Pessa concorda com a mensagem do decrescimento. Vc naum?

5.9.08

NORMOSE (Martha Medeiros)

Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal.

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito 'normal' é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se 'normaliza' acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não-enquadramento.

A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas? Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha 'presença' através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo.

A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta.

Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu 'normal' e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante.

O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais. Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.

Fonte: Jornal "Zero Hora" nº 15323 (5/8/2007), caderno "Donna".

6.7.08

PROTAGONIZE SUA VIDA - Leandro Cruz (o poema é dele, não é meu!)

Quão humano você ainda é?
Você se orgulha do que você faz?
Você é o que queria ser quando crescesse?
Seus dias são as realizações de seus grandes sonhos?
Você já teve a sensação de viver o mesmo dia várias vezes?
Você não tem vergonha interna de sorrir para o patrão que você queria trucidar?

A felicidade não cabe numa cesta básica.
A felicidade não cabe numa bolsa Gucci.
A felicidade não pode esperar na fila do banco.
A felicidade não pode esperar até as eleições.

Quão envergonhado e triste a criança que você foi
Se sentiria ao ver como você vive seus dias?
Um após o outro.
Automático.
Anônimo.
Patético.

Quem busca apenas a estabilidade
Vê a vida como mera fatalidade
Tem um trabalho sem prazer
Come pra viver e vive pra comer

Onde foi parar nossa emoção de caçar Mamutes?
Era tão divertido enfiar nossa lança no bucho dos tigres
Há quanto tempo não somos humanos?
Há quanto tempo somos robôs? autômatos

Os humanos podem morrer cedo
Mas os autômatos jamais vivem,
Até chegam aos 80 anos
se não correrem riscos e ficarem muito ricos
Mas de que vale ficar velho sem correr riscos?
É como passar o dia todo no parque com medo,
Sem coragem de entrar em nenhum brinquedo

Sua vida pode ser mais do que isso
Você ainda é capaz de dizer “eu te amo”
Você ainda é capaz de dizer “vá à merda”
A maior dor que alguém pode sentir é pensar:
“Eu devia ter dito”, “eu devia ter feito”

Dê uma virada na sua vida
Recomece do zero, invente uma missão
Protagonize sua História, peça demissão
Peça seu grande amor em casamento
Ainda que ela esteja com outro, no altar, neste exato momento
Corra, ainda dá tempo! Ou remoa para sempre esse tormento

Bruno Pessa está aberto a manifestações amigatícias, sobretudo as coerentes com seu modo de ver o mundo

5.5.08

CHAVES PROFUNDO!

Um madruga em cada esquina - Por Rafael Pereira de Menezes (14/02/2002)

Há cerca de 20 anos atrás, em um país distante chamado México, existia uma pequena vila suburbana, habitada por tipos igualmente suburbanos. Eram pessoas comuns: Viúvas, desempregados, crianças, professores... Também há cerca de 20 anos, um pouco menos do que isso talvez, uma recém fundada emissora de TV brasileira adquire um despretensioso seriado produzido no México, retratando justamente a vida das pessoas descritas no parágrafo acima. Para quem não percebeu, estou falando do Chaves, ele mesmo, o garoto que vive dentro de um barril.

Nasci em 1982, portanto minha infância foi muito marcada por esta série. Me lembro que ela era transmitida em horário nobre, às 20h. Minha mãe sempre me obrigava a ir dormir após o Chaves. Era um momento bastante esperado pra mim, que ficava torcendo pro episódio não terminar, assim eu poderia ficar acordado até mais tarde.

O tempo passou, aquele canal de TV cresceu e hoje é um dos maiores do país, investe milhões em artistas, em filmes e em programas. Porém aquela série permanece no ar, diariamente. Bom, tem gente que detesta, tem gente que adora, mas é impossível negar. Todos nós já passamos algumas horas em nossas vidas assistindo o programa dos personagens criados por Roberto Bolaños. O que intriga a muitos é como o programa consegue se manter no ar por todos estes anos? Como uma série que possui tão poucos recursos técnicos consegue cativar crianças e adultos em plena era do computador, dos desenhos feitos em animação gráfica?

NÃO POR ACASO
Sempre me questionei a respeito disso sem nunca ter conseguido chegar a uma resposta. Até que um dia, por acaso, zapeando os canais de TV à tarde, acabei vendo uma entrevista de Bolanõs. Uma frase dele que me chamou muito a atenção foi a seguinte: "o Chaves faz sucesso em qualquer lugar do mundo onde existe fome". Realmente, sua série é bem sucedida em toda a América Latina, do México à Argentina. Pude comprovar pessoalmente isto quando estive no Chile, em 1999. Todos os latinos conheciam os personagens e os capítulos, assim como no Brasil. Já os europeus e norte-americanos nunca tinham sequer ouvido falar. Comecei a ver algum sentido na afirmação de Bolaños.

Aquela vila despretensiosa é um microcosmo que contém a sociedade latino americana. É uma grande caricatura de nós mesmos. Pode parecer estranho este comentário. Mas uma observação mais atenta sobre os personagens demonstra isso claramente.

Um homem que vive endividado, que tenta várias profissões diferentes durante um curto espaço de tempo, sem nunca atingir êxito em qualquer delas, mas que mesmo assim nunca para de procurar outra atividade para manter a si próprio e a sua filha única. Passa a maior parte de sua vida desempregado ou sub-empregado, o que transmite a um observador menos atento uma imagem de preguiçoso, de vagabundo. É assim taxado por todos aqueles que ocupem uma classe social mais alta do que a dele, como por exemplo, seu senhorio. Quantos 'madrugas' não estão por aí, nas bancas de camelô dos centros das grandes cidades brasileiras? Vivendo de aluguel e sendo despejados de casas pequenas na periferia? Estariam eles também nas invasões de terrenos públicos? Nas favelas, talvez?

Sua vizinha é uma viúva que vive de pensão, símbolo de uma classe média cada vez mais oprimida e decadente, mas que mesmo assim luta com todas as forças para manter o que resta de sua posição social (apesar de viver em um cortiço). Tenta de todas as formas manter um padrão de vida que já não condiz com sua realidade. É obrigada a viver em um bairro afastado, cercada de pessoas de nível cultural inferior, o que a incomoda, e ao mesmo tempo a eleva. Neste local ela pode ser superior. Pode olhar todos os seus vizinhos de cima. Não por acaso, ela se aproxima da única pessoa na história que possui um nível de cultura um pouco mais elevado, ou seja, o professor de seu filho, um garoto robusto e mimado, que por isso é sempre passado pra trás pelas outras crianças, mais pobres e, talvez por isso, mais espertas, uma vez que não tiveram tanto mimo, tanto zelo por parte de seus pais.

Na casa ao lado vive uma senhora de idade não tão avançada, mas que é claramente discriminada por todos os habitantes do local por isso. Vive sozinha, dependendo de sua aposentadoria pra viver. O dinheiro, embora escasso, é suficiente, uma vez que ela vive sozinha. Uma pessoa em seus 60 anos sendo considerada idosa, não seria reflexo de uma baixa expectativa de vida? Qual será a média de vida da imensa maioria de madrugas de nosso país? E por que ela é sozinha? Será que alguém olha pra ela? As visitas do carteiro nunca trazem nada para tal senhora. Ela cita alguns parentes distantes, que porém, jamais aparecem. Eles não se importam. O idoso é visto como um peso, alguém que dá trabalho e não trás retorno, logo é isolado em sua pequena casa, ou em um asilo, ou em seu quarto. Apenas ela e suas lembranças entram naquela casa.

SI, EL CHAVO
Chego finalmente ao personagem central da história. Um garoto que diz ter família, mas que ninguém a conhece. Que diz ter um nome, mas que ninguém sabe qual é. Ele vive no mesmo ambiente destas pessoas, brinca no pátio e vai a escola, porém sempre sozinho. Não tem o que vestir, enquanto as crianças próximas a ele estão sempre bem vestidas. Todos demonstram pena pela criatura, e engolem seco cada vez em que ele manifesta sua fome, suas necessidades, sua carência afetiva. Porém nada de concreto é feito para mudar sua condição, talvez um sanduíche de presunto hoje, um sapado usado e velho amanhã. Isso basta para manter as consciências suburbanas tranqüilas e satisfeitas, com uma caridade vazia que mantém uma criança vivendo dentro de um barril.

Este barril poderia ser uma marquise? Um viaduto? Quantas crianças vivem nas ruas de nosso próprio bairro e nada fazemos para ajudar? Damos um trocado aqui, um sanduíche aqui. As vezes até juntamos tudo o que não queremos, colocamos em um saco de supermercado e descemos de nossos apartamentos para fazer a caridade. Restos, apenas restos. De comida, de roupa, de afeição. O garoto continua lá, faminto e sozinho. Irá crescer e ser repreendido caso vier a contrariar as regras da sociedade em que cresceu a margem. Ou pior, no caso de suspeita, será o culpado. Não pretendia citar episódios da série nesta parte do texto, mas não posso deixar de citar o episódio do ladrão que aparece na vila. Todos, sem exceção, o acusam de ladrão. Sempre afirmaram que tinham pena e até chegavam a gostar do pobre coitado, porém na primeira oportunidade ele foi julgado e condenado. Era inocente e todos pediram desculpas. Mas tais desculpas aparecem na vida real? Acho que não.

Realmente, meus colegas europeus jamais entenderiam este contexto, logo jamais ririam disto. Que sorte a deles. A auto-ironia sempre tem um efeito devastador sobre todos. Não existe nada mais fácil do que rir de si mesmo refletido no outro. Não existe nada mais fácil do que julgar e condenar alguém que se encontra um pouco abaixo de você.

Então desempregado e vagabundo se confundem, a velha é velha, o rico é rico (mais um detalhe, os ricos da série são gordos, teria isso algo a ver com abundância? Será por isso que todos os outros são magros?), ele não se mistura, apenas aparece para cobrar aluguéis (contas, mensalidades, prestações) e a criança abandonada permanece abandonada. Aliás, todos permanecem abandonados à própria sorte em seus pequenos problemas, aparentemente sem solução, tentando se adaptar inutilmente à esta dura realidade.

Claro, isso são coisas que só se percebem com o tempo. Uma criança não entende tais coisas ao assistir "Chaves". Os adultos riem um riso solto, "esses problemas não são apenas meus" pensam, mesmo que inconscientemente. E acham tudo aquilo engraçado. Aquilo tudo lhes diz respeito e faz muito sentido. Aquele é o seu próprio mundo e a sua própria comédia. Infelizmente.

Bruno Pessa sempre concede a palavra quando alguém fala bonito e nos faz pensar sobre temas de relevância cômico-social

27.2.08

LEITURAS REVOLUCIONÁRIAS são possíveis com os textos-obras-primas da repórter Eliane Brum, da revista Época. Dois exemplos cabais:

"O inimigo sou eu" (10 dias num retiro de meditação = puta lição de vida) - clique aqui

"Suicidio.com" (jovem gaúcho comete suicídio com ajuda de internautas) - clique aqui

Em breve neste bológue, discussão sobre (falta de) suicídio na mídia!


Bruno Pessa não confunde discussão de suicídio (isso é permitido) com incitação ao suicídio (isso é crime)